As primeiras cooperativas surgiram em regiões onde a ausência de alternativas exigia soluções próprias. Na história do ES, seguimos um caminho parecido.

Por Bento Venturim

 

Quando o cooperativismo de crédito começou a se organizar no mundo, ainda no século XIX, a preocupação central era, basicamente, criar um instrumento comunitário capaz de proteger pessoas comuns dos ciclos econômicos que tantas vezes as deixavam à margem. Foram pessoas que intuíram algo que se mostrou fundamental ao longo dos séculos, já que é muito difícil pensar em desenvolvimento sustentável sem relações de confiança e sem a construção coletiva.

No Brasil, essa mesma lógica encontrou terreno fértil. As primeiras cooperativas surgiram em regiões onde a distância e a ausência de alternativas exigiam soluções próprias. E, curiosamente, quando olhamos para a história do Espírito Santo, percebemos que seguimos um caminho parecido: comunidades pequenas, economias locais muito dependentes da atividade agrícola e uma cultura marcada pelo esforço conjunto.

Foi nesse cenário que olhamos para o cooperativismo de crédito. Não havia horizonte grandioso, o que havia era a convicção de que esta poderia ser uma ferramenta de emancipação econômica e de desenvolvimento para nós.

Crescemos em conjunto, respeitando a singularidade de cada cooperativa e de forma artesanal, com reuniões presenciais, decisões colegiadas, relações que se construíam olhando nos olhos. Ninguém imaginava que, 36 anos depois, chegaríamos ao ponto de testemunhar o ingresso do cooperado número “um milhão”.

Esse marco não é sobre o resultado, mas sobre percurso. O cooperativismo de crédito não se consolidou porque disputa espaço com outras instituições financeiras. Ele se consolidou porque resistiu às mudanças tecnológicas aceleradas e, principalmente, resistiu às tentações de abandonar seus princípios. O que mantém as cooperativas relevantes até hoje, como mostram os exemplos europeus de solidez centenária, é justamente a fidelidade a um modelo que coloca o indivíduo como parte da construção.

No Espírito Santo, isso dialoga profundamente com quem somos. O chamado “DNA capixaba” é uma forma de agir. Aqui, aprendemos desde cedo que a vida comunitária exige equilíbrio entre autonomia e cooperação, entre prudência e ousadia. Talvez por isso o cooperativismo de crédito tenha encontrado tamanha aderência no Estado. Não precisou se adaptar de forma exagerada, seguiu a lógica natural da nossa cultura.

Alcançar um milhão de cooperados significa, acima de tudo, que um milhão de pessoas decidiram participar de uma instituição em que a voz de cada uma delas tem peso, em que o resultado pertence a quem contribui e em que as decisões são tomadas com horizonte de longo prazo.

É um número que diz sobre pertencimento. São histórias que se somam: a do agricultor que financiou a primeira lavoura, a da família que conseguiu estudar, a do pequeno negócio que criou raízes na própria comunidade, a de pessoas que conseguem investir e adquirir bens e a de grandes grupos empresariais que têm a sua trajetória marcada por relacionamento sólido.

Vivemos tempos em que a velocidade das transformações é tão grande que muitos modelos passam a existir quase exclusivamente no curto prazo. O cooperativismo de crédito segue outro caminho, porque ele foi amadurecendo. Isso é um dos fatores que nos dão sentido a esse marco histórico do Sicoob.

Um milhão de cooperados não representa a chegada, mas a continuidade de um projeto que nasceu capixaba, se expandiu para outros estados, mas mantém sua essência e segue preparado para apoiar as pessoas, os empreendedores e toda a comunidade em que está presente.

 

Bento Venturim é presidente do Conselho de Administração do Sicoob Central ES

Esse artigo é uma republicação da Edição 231 da Revista ES Brasil – Retrospectiva 2025 – Leia aqui

Este site utiliza cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação a seus visitantes e usuários, exibindo os conteúdos que se adequam às suas necessidades e preferências. Deseja aceitar os cookies deste site?